ARQUIDIOCESE
de Pouso Alegre

Leia a homilia de Dom Majella na Missa do Crisma - por Pe. Andrey Nicioli


Na última quinta-feira, 13, quinta-feira Santa, o Arcebispo Metropolitano, Dom José Luiz Majella Delgado - C.Ss.R, presidiu na Catedral Metropolitana a Missa do Crisma. Todo o clero arquidiocesano e padres que ajudaram algumas paróquias durante a Semana Santa, também concelebraram. Centenas de fiéis lotaram a Igreja Mãe da Arquidiocese para a Missa da Unidade. Em sua homilia, Dom Majella dedicou um bom espaço se dirigindo ao clero, chegando a afirmar que "a nossa fé não pode ser estática, ela é dinâmica. Confirmamos e realizamos cada vez mais a nossa vocação, na medida em que vivemos o mistério da celebração eucarística diária, com crescente intensidade de fé sempre renovada e vigilante, firme e genuína, amamos o sacerdócio e o ministério sacerdotal, que somos chamados a desempenhar". 

Leia na íntegra a homilia do Arcebispo

"Amados irmãos e irmãs, hoje nos reunimos nesta Sé Catedral para celebrar a liturgia da bênção do Óleo do Crisma, do Óleo dos Catecumenos e do Óleo dos Enfermos. Com o nosso presbitério presente renovaremos as promessas sacerdotais. Esta liturgia matutina constituia a preparação anual para a Páscoa de Cristo, que vive na Igreja, comunicando a todos aquela plenitude do Espírito Santo, que está n'Ele mesmo, comunicando a todos a plenitude da Sua Unção, como ouvimos no Evangelho proclamado (Lc 4, 16-21).

Conta-nos São Lucas no Evangelho que Jesus ao começar a sua vida pública, aplicou a si mesmo as palavras do profeta Isaías, que ouvimos na primeira leitura (Is 61, 1-3a.6a.8b-9). Cristo inaugurava, assim, a nova era messiânica. A presença do Espírito sobre Ele no momento do Batismo foi como que a consagração à obra salvífica a que estava destinado. Quando Jesus proclama que 'hoje' se cumpriu esta passagem da Escritura', ele alude à sua missão que começou por libertar os presos, os pobres, os cegos e oprimidos deste mundo; todos os seus gestos e as suas palavras foram uma 'Boa Nova' de vida e plenitude para os homens; uma 'Boa nova' que culmina na Páscoa da transformação radical do ser humano. A partir daí, entende-se a exigência: os gestos de Jesus, a obra do Espírito, deve continuar através da nossa vida.

Com esta missa do Crisma manifestamos a Igreja viva, pois o bispo celebra a Eucaristia circuncidado pelos sacerdotes de todas as paróquias da nossa Arquidiocese de Pouso Alegre e pelos padres que representam as ordens religiosas. Celebramos em sinal de unidade e fraternidade. Temos aqui também os diáconos e demais ministros e a presença dos fiéis da Arquidiocese em bom número. Sua presença e participação é grandemente desejada, querido irmão, pois a Igreja fica incompleta sem o povo leigo de Deus. Mas nessa missa o sacerdócio é o tema principal. Todo o sacerdócio é participação no sacerdócio único de Cristo. Não somente o sacerdócio ministerial, mas também o sacerdócio geral dos fiéis. Jesus é o nosso Mediador e Sumo Sacerdote. Sua unção é pelo Espírito Santo. Assim vimos expressar na primeira leitura e no Evangelho de Lucas. Nesta celebração o nosso olhar fixa-se em Cristo, plenitude, fonte e modelo de todas as vocações, e, particularmente, da vocação ao serviço sacerdotal. Cada um de nós, amados irmãos padres, revive hoje, na mente e no coração, o seu próprio caminho até ao sacerdócio. Todos recordamos o dia e a hora, em que o Bispo impôs sobre cada um de nós as suas mãos, em profundo silêncio. Olhando os anos de vida e serviço sacerdotal podemos nos perguntar: qual o progresso da fé na minha vida de sacerdote? O que fazemos da nossa fé? Como estou respondendo à exigência da fé? (Jo 6,29). Permaneço fiel à Palavra de Jesus no exercício do meu sacerdócio não confundindo a fé autêntica com uma fé aparente?

Iniciamos este ano o tríduo preparatório para a celebração do jubileu dos 120 anos da criação da Diocese de Pouso Alegre que acontecerá em 2020, e escolhemos como tema central para este primeiro ano a fé. Quando o Senhor Jesus estava a falar com seus discípulos acerca da misericórdia e disse que devemos perdoar setenta vezes sete (cf. Lc 17,5), os Apóstolos disseram a Jesus: 'Senhor, aumenta a nossa fé'. Peçamos também nós na nossa vida ministerial, na nossa vida cristã, pois a fé é o caminho magistral da salvação.

É verdade que temos recebido o dom da fé, mas como um germe, que deve crescer, desenvolver-se com a graça de Deus e com nossa liberdade. Por isso hoje os convido a examinarmos mais de perto a nossa fé como sacerdotes. O que fazemos da nossa fé? Somos testemunhas de que a fé em Cristo é capaz de aquecer os corações, tornando-os realmente a força matriz da evangelização? Somos impelidos a fazer um exame de consciência contra o risco de pôr 'Cristo em parênteses' na nossa vida ministerial em vista de um empenho excessivo na administração paroquial, na organização pastoral e no cuidado exagerado com a nossa pessoa e nossos bens materiais. 'Em Jesus se realiza o desígnio de Deus; o mistério, escondido por séculos, da redenção da humanidade, é reveldo. Em Cristo se concentram os nossos destinos, em Cristo se resolvem os nossos dramas, em Cristo se explicam as nossas dores, em Cristo se perfilam as nossas esperanças!' (Paulo VI, O Credo do Povo de Deus). A fé se dirige justamente a Jesus que é o caminho, a verdade e a vida, sem o qual ninguém chega ao Pai (Jo 14, 6). Porque esta é, no fundo, a grande tarefa cristã: tornar Deus presente à maneira como Jesus o representou. Jesus é a fonte central do conteúdo da fé cristã. Jesus, com sua cruz, atravessa nossos caminhos e nos possibilita participar em sua vida. Essa proximidade é real somente na fé. Jesus se faz próximo dos mais frágeis. É muito bom sentirmos confusão, quando temos conhecimento e o sentimento da nossa miséria e imperfeição, mas não devemos deter-nos nesse estado nem cair no desalento, antes levantar o coração a Deus com uma confiança cujo fundamento deve estar n'Ele e não em nós. Se nós mudamos, Ele nunca muda, e é tão bom e misericordioso quando somos fracos e imperfeitos como quando somos fortes e perfeitos. Se permanecermos próximos do Senhor, teremos a fortaleza para estar perto dos mais frágeis, dos mais necessitados, para os consolar e fortalecer. E podemos fazer isto com a fortaleza da nossa fé e a capacidade de sermos semeadores de esperança.

Devemos perguntar-nos: qual é o lugar que Jesus Cristo ocupa na nossa sociedade e na própria fé dos cristãos? Constatamos uma presença-ausência preocupante, e até uma rejeição da sua pessoa no que acreditam, na realidade, os que se definem crentes. Precisamos ser padres para esta época. É na fé autêntica que está posta toda a fundamentação para todo o fazer guturo e que este não pode mais obter sua motivação do mundo. É na fé que tomamos a decisão de como fazer do amor. Somos interpelados a rever a qualidade da nossa fé. É uma fé humilde, corajosa? Nossa fé é, muitas vezes, intelectual, muito cerebral. Temos de aprender do Evangelho: crer de maneira simples e corajosa, ousar muito em matéria de fé. O Catecismo da Igreja Católica nos diz: 'Para viver, crescer e perverar até ao fim na fé, devemos alimentá-la pela Palavra de Deus; devemos implorar o Senhor que a aumente, ela deve 'agir pela caridade' (Gl 5,6), ser carregada pela esperança e estar enraizada na fé da Igreja. Crescer na fé deve ser a nossa busca constante como sacerdotes, discípulos missionários. O crescimento na fé dá-se através do encontro com o Senhor ao longo da vida. O Papa Francisco afirmar na Evangelii Gaudium - que é um documento programático - a importância do 'crescimento' e da 'maturação', na fé. Diz o documento: 'O mandato missionário do Senhor incui o apelo ao crescimento da fé, quando diz: 'ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado' (Mt 28,20). Daqui se vê claramente que o primeiro anúncio deve desencadear também um caminho de formação e de amadurecimento' (EG, 160).

Nossa missão se concretiza em meio à luzes e sombras que caracterizam o nosso tempo. Por isso, como discípulos e missionários, somos chamados a captar os anseios profundos de todas as criaturas e da 'criação interia que geme e sofre as dores de parto' (Rm 8,22) a espera da gestação de uma nova sociedade, onde reine a justiça e se respeite a dignidade da pessoa humana. Se queremos ajudar a formar cristãos comprometidos com sua fé precisamos dedicar um cuidado especial com a nossa formação (DAp 315).  A formação não se realiza antes ou depois da missão, mas na missão (DAp 278e). Participar dos momentos de formação do nosso clero é indispensável e nos alicerça num discernimento esclarecido à luz da fé. Recordo com carinho aqui os padres que, seja pela idade ou enfermidade, estão afastados das responsabilidades pastorais e dos nosso encontros de formação. Como sensibiliza o meu coração quando numa atitude filial e de co-responsabilidade telefonam ou comunicam justificando a ausência dos nossos encontros. Olhemos sempre para eles com admiração e gratidão, na certeza de que contamos com suas orações. Sempre que possível, empenhemo-nos por visitá-los e com eles partilhar umpouco do nosso tempo sacerdotal.

A fé - o progresso e o crescimento na fé - funda-se sempre na Cruz. Jesus nos diz que precisamos negar a nós mesmos, aprender a perder e perder até a própria vida. Jesus inaugurou e percorreu pessoalmente este caminho e por isso nos diz que para segui-lo é necessário 'tomar a cruz', que significa agora 'ir após ele', colocar os pés em suas pegadas, segui-Lo. Às vezes a cruz mais pesada de um padre é o próprio irmão no presbitério. É bom e apelamos que os padres se visitem e se ajudem mutuamente, e que o povo de Deus possa exclamar: 'Vede como eles se amam'. De fato, um dos primeiros testemunhos que um padre deve dar é o da unidade afetiva e efetiva com outros padres. O povo de Deus reconhece e estimula esta ralidade, chocando-se ao perceber contendas, disputas e inimizades. Quando os padres manifestam autêntica fraternidade entre si, são admirados por todos.

Queridos irmãos no sacerdócio, a nossa fé não pode ser estática, ela é dinâmica. Confirmamos e realizamos cada vez mais a nossa vocação, na medida em que vivemos o mistério da celebração eucarística diária, com crescente intensidade de fé sempre renovada e vigilante, firme e genuína, amamos o sacerdócio e o ministério sacerdotal, que somos chamados a desempenhar. Saibamos manter o 'olhar fixo em Jesus, aquele que dá origem à fé e a leva a cumprimento' (Hb 12,1-3). A fé não é só uma virtude sobrenatural pela qual somos capacitados a aceitar como verdade tudo aquilo que Deus revelou. A fé, no seu sentido mais pleno e mais rico, é o abandono total de nossa pessoa a Deus. É a entrega total do nosso destino ao seu destino.

Façamos simplesmente nossa a conclusão prática dos Apóstolos: Aumenta a nossa fé! A fé que procuramos é escolha do homem, mas é, sobretudo, dom de Deus. Aprende-se, portanto, colocando-se de joelhos. Como aquele homem do Evangelho, também nós dizemos: 'Creio Senhor, mas aumenta a minha fé' (Mc 9,23-24).

Imitemos Maria na fé, ela é apoio da nossa oração, pois o seu fiat ecoa para todos os seus filhos. Peçamos, pois, à Virgem Mãe que, pelos merecimentos de sua fé, nos alcance uma fé viva. Senhora, aumentai a nossa fé! Porque a fé sempre nos traz alegria. Amém".  

 

A Missa do Crisma

Na "Missa do Crisma" se abençoa o óleo dos catecúmenos e dos enfermos e se consagra o Santo Crisma, daí, ser também chamada "Missa dos santos óleos". Renovam-se nela as promessas sacerdotais pronunciadas no dia da ordenação, sendo por isso também chamada Missa da Unidade, expressando a comunhão diocesana em torno do mistério pascal de Cristo, sendo um momento muito intenso de comunhão eclesial, de participação intensa das comunidades e de valorização dos sacramentos da vida da Igreja.

 

Publicado no dia 17/04/2017